Trabalho

Longe da vista, longe do coração?

Longe da vista, longe do coração?

O recurso a trabalhadores freelancer, remotos e nómadas digitais está em crescimento. Do lado das empresas há o desejo de reduzir custos e diversificar talento, atribuindo projetos pontuais a perfis com as melhores competências. Do lado da força de trabalho existe um cada vez maior desejo de liberdade que ainda assim não chega para combater a sensação de isolamento na hora do café.

Mas como é que se elimina o fosso criado entre as organizações e estes trabalhadores? Longe da vista significa mesmo longe do coração ou é possível aproveitar todo o potencial de um trabalhador ‘virtual’ e ainda assim conseguir que este se sinta parte do ecossistema?

Os relatos desta nova força de trabalho, os nómadas digitais ou freelancers, como já se tornou comum chamar-lhes, mostram que apesar de em muitos casos esta forma de trabalhar ser uma opção pessoal, não é uma opção livre de constrangimentos. Sentem falta do sentido de comunidade, dizem. Do valor que pode advir das relações pessoais. E de serem ouvidos… Sobretudo de serem ouvidos.

Mas no que diz respeito a estes ‘novos problemas’, a resposta pode estar em ‘velhas soluções’, referem os especialistas. Chris Byers, CEO de uma empresa chamada Formstack, que trabalha diariamente com ‘nómadas digitais’, escrevia recentemente na Entrepreneur que a melhor forma de fazer com que um trabalhador remoto se sinta parte da empresa é através da definição de ‘controlos’ regulares, ‘AKA’ reuniões mensais, trimestrais ou semestrais, ações de team building e formação.

De acordo com o executivo é importante antecipar a necessidade de ter uma comunicação aberta e fluída com estas pessoas. Por isso, sempre que se contrata um novo freelancer, devem estabelecer-se datas de reuniões para definir não só os objetivos que é preciso atingir, mas sobretudo para mostrar que o input destas pessoas é válido e que a organização está recetiva a novas ideias, sejam de um colaborador interno ou externo. E já agora, reuniões por Skype, emails diários ou utilizar o Slack não chega!

Cláudia Pinto tem 37 anos e as suas colaborações como jornalista freelancer estendem-se a várias empresas de comunicação social, como é o caso do Grupo IFE, que edita publicações como a Veterinária Atual e a Distribuição Hoje. “Ainda que o contacto presencial seja menor e se cinja mais a eventos organizados pela IFE e aos quais sou chamada para fazer a cobertura ou moderar debates, é um contacto mais à distância, mas que não me faz sentir muito longe”, revela.

Para a jornalista é fácil sentir que as suas ideias são ouvidas, até porque “os diretores das revistas com quem trabalho mensalmente sempre deixaram a porta aberta para fazer contactos a partir da redação ou utilizar alguns meios da empresa, sempre que se justificasse (chamadas para o estrangeiro, por exemplo) ou mesmo para a realização de entrevistas presenciais caso haja essa necessidade.”

“Sempre que se trata de trabalho em regime de freelance, todo o conceito parte do pressuposto de que somos apenas prestadores de serviços”, Ana Tavares

Um retrato um pouco diferente daquele que nos traça Ana Tavares, jornalista que também colabora regularmente com o Grupo IFE. Tem 32 anos e começou a trabalhar assim que terminou o curso e, por isso, já experienciou um pouco de tudo. “Já trabalhei em praticamente todos os formatos: já fui recibo verde, mas com trabalho fixo, já fui só freelancer e estou efetiva, com contrato, há oito anos. Geralmente sempre conciliei o trabalho como freelancer com o meu trabalho a contrato, numa redação, à exceção de um período de oito meses em que me despedi do meu anterior trabalho e fiquei a trabalhar como freelancer a tempo inteiro durante cerca de oito meses. Isto foi em 2008. Neste momento, apesar de ser efetiva e de ter uma redação onde trabalhar, trabalho maioritariamente a partir de casa. A minha empresa tem redações em Lisboa e no Algarve e pertenço ao escritório do Algarve, mas regressei a Lisboa há três anos e, desde então, trabalho a partir de casa. Desloco-me semanalmente ao escritório de Lisboa, de onde trabalho pelo menos um dia por semana, e vou ao Algarve quando posso.”

Sobre a opção de trabalhar como freelancer – apesar de ter um contrato de trabalho com uma empresa – admite que é sobretudo uma “questão monetária”. Ana Tavares explica que “os jornalistas não são profissionais bem pagos, considerando a pressão que enfrentam e o número de horas que trabalham. Depois, pela questão da especialização – é muito comum especializarmo-nos num tema, mas nunca gostei disso, gosto de escrever sobre vários assuntos. Por exemplo, trabalho no ramo do lifestyle – escrevo sobre turismo, viagens, vinhos, restaurantes, tendências. As minhas colaborações permitem-me escrever sobre economia e empreendedorismo e até sobre arte, temas que sempre me interessaram.”

“É fácil sentirmo-nos estagnados quando trabalhamos na mesma redação há vários anos e o trabalho a freelancer dá-me o desafio e a realização de poder executar trabalhos diferentes. Felizmente sou uma jornalista atípica, no sentido em que trabalho horas certas (das 9h00 às 18h00, com algumas exceções). Isso dá-me tempo e vontade para entrar noutros projetos e suplementar o meu salário”, acrescenta.

“Com o passar dos anos em que se desenvolvem as colaborações, é mais fácil sentirmo-nos como parte integrante da equipa, e também os responsáveis, diretores ou outros, nos fazem sentir assim”, Cláudia Pinto

A questão da integração de um trabalhador que ‘não faz parte’ de uma organização é, na sua opinião, “complexa”, até porque “sempre que se trata de trabalho em regime de freelance, todo o conceito parte do pressuposto de que somos apenas prestadores de serviços.” Para Ana Tavares é mais fácil sentir “mais ligação em relação à revista em si e não tanto à empresa que a edita, até porque tenho praticamente zero contacto com a mesma”.

“Creio que o nosso trabalho é tão ou mais valorizado do que o de um colaborador interno porque preenchemos lacunas nas empresas e, além disso, podemos nem sempre estar disponíveis, já que às vezes estamos ocupados com outros projetos mais rentáveis ou com os quais já nos comprometemos. É uma gestão que temos que fazer e para a qual as empresas devem estar preparadas. Por este motivo não podemos ser dados por garantidos, embora haja relações de trabalho que se mantêm ao longo de vários anos, se a relação entre contratador e freelancer funcionar bem. No entanto, quem desempenha a sua função como precário (ou falso recibo verde) e não é verdadeiramente um freelancer, com tudo o que isso implica, dificilmente sentirá que é valorizado pela empresa.”

Cláudia Pinto acrescenta que “o facto de os diretores terem como preocupação agradecer algum maior esforço da nossa parte, em alguma ou outra situação, ou de darem a sua opinião positiva em relação a algum artigo que gostaram em particular” pode ser uma boa forma de fazer com que estes trabalhadores ‘externos’ se sintam parte da equipa.

A jornalista colabora com várias empresas, trabalha temas das mais variadas áreas e está habituada a apresentar resultados a um ritmo a que poucos profissionais estão obrigados, sem tempo para cafés, reuniões de equipa ou a habitual conversa de corredor comum em qualquer organização. Ainda assim diz-se “uma privilegiada”.

“Sinto-me integrada, sou convidada para reuniões internas e até jantares de colegas, isto sobretudo nos casos de revistas e empresas com quem colaboro mais regularmente. Também tenho casos de empresas em que somos mesmo freelancers e prestadores de serviços, e há um maior distanciamento, mas isso acontece mais naquelas empresas em que a colaboração é mais pontual e não tão assídua, o que é perfeitamente compreensível, tendo em conta as exigências dos tempos atuais. Julgo que, com o passar dos anos em que se desenvolvem as colaborações, é mais fácil sentirmo-nos como parte integrante da equipa, e também os responsáveis, diretores ou outros, nos fazem sentir assim”, assume Cláudia Pinto.

A jornalista refere, no entanto, que da parte das organizações deveria haver a preocupação de “organizar mais reuniões com os colaboradores para troca de sinergias, ou mesmo encontros informais, ainda que, pela experiência que tenho, não seja nada fácil conciliar datas e agendas entre a empresa e os vários colaboradores externos ou prestadores de serviços que, não raras vezes, se dividem em funções ou colaborações. Claro que às vezes sinto alguns constrangimentos de ser freelancer, quando sou questionada sobre algo para o qual não tenho resposta imediata, ou quando não tenho o diretor ou colega ao lado para ter respostas mais rápidas às minhas dúvidas, mas tento minimizar isso com um telefonema, conversas em chat de conversação, SMS, email…”

Ana Tavares acrescenta que apesar de nem todos os freelancers terem disponibilidade para trabalhar fisicamente no espaço, “uma reunião ocasional ou até pequeno encontro informal entre os colaboradores pode ajudar a integrar o freelancer. Fazer parte das decisões da equipa, o que ajuda a sentir que o nosso input é valorizado. Reconhecer o bom trabalho do colaborador, embora isto seja válido para freelancers e não freelancers. Estar aberto a receber ocasionalmente o freelancer no seu escritório… Uma das maiores dificuldades desta profissão é o isolamento. Trabalhamos muitas vezes em casa, sem ninguém para tomar um café a meio do dia ou para trocar umas palavras. A abertura a podermos ocasionalmente visitar ou trabalhar a partir da empresa com a qual colaboramos também nos faz sentir parte da equipa, porque vemos o que estamos a criar, em que tipo de empresa estamos inseridos e percebemos dinâmicas importantes de trabalho às quais nunca teríamos acesso sentados numa secretária em casa.”