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Derrubando as barreiras que impedem a criatividade

No seu livro de 2002, The Rise of the Creative Class, Richard Florida previu que a criatividade se converteria num motor económico fundamental e determinaria como se organiza o espaço de trabalho. Previu que as empresas prosperariam ou desapareceriam e inclusivamente que as cidades floresceriam ou caíriam em decadência. E mesmo que as suas ideias pudessem não ser entendidas naquele momento, com as empresas centradas na produtividade, na eficácia e no controlo de gastos, chegámos a 2018 e constatamos que as suas previsões se estão a tornar realidade. Na agenda empresarial a criatividade está a escalar postos rapidamente e, aproximadamente, três quartos dos trabalhadores (72%) creem que o seu sucesso futuro depende dela.

PORQUÊ A CRIATIVIDADE?
A evolução criativa tem sido impulsada por uma série de tendências, que se conjugam entre si, para modificar a maneira de alcançar sucesso no mundo moderno. O espaço de trabalho atual é de uma complexidade crescente, com circunstâncias que mudam rapidamente e de forma inesperada. Ao existir menos tempo para tomar decisões, as velhas hierarquias ficaram desterradas e em todos os níveis da organização existe a necessidade de responder, reagir, tomar decisões e solucionar problemas.
A isto há que somar o auge da automatização e a inteligência artificial, que prometem uma reestruturação geral da forma como se realiza o trabalho em diferentes sectores. As máquinas estão a impôr-se com uma grande expressão nas transações e processos, o que reduz as tarefas do ser humano para se concentrar em atividades que sejam menos estruturadas, resolver novos problemas e gerar novas ideias. E para tudo isto é necessária cada vez mais criatividade.

A MORTE DO “GÉNIO” CRIATIVO
Juntamente com estes motores existe uma evolução nas atitudes relativamente à criatividade e ao que significa ser criativo. No passado, as organizações, para inovarem e serem competitivas, recorriam aos chamados “génios criativos”, acreditando que a criatividade era algo com que apenas nasciam os eleitos e que a magia acontecia bastando estar fechados numa garagem ou num laboratório. Mas essas perceções evoluíram e, atualmente, a ideia mais espalhada é que toda gente tem a capacidade inata de ser criativo e que a criação ocorre numa comunidade solidária. 

“A criatividade não surge do nada: é necessário fomentá-la e apoiá-la num contexto de um espaço criativo onde existam outras pessoas a procurar ser igualmente criativas.”

AS RESTRIÇÕES À CRIATIVIDADE
Apesar desta mudança de atitude e da urgente necessidade de mais pensamento criativo, a maioria das organizações atuais não são capazes de proporcionar o ambiente e as condições necessárias para que a criatividade faça parte da engrenagem cultural. Esta teoria está suportada por uma investigação que revela que 40% dos trabalhadores afirmam que a sua criatividade não se fomenta nem se vê recompensada pelo seu empregador e 69% declara que não está a desenvolver todo o seu potencial criativo[1].
[1] Investigação levada a cabo por Microsoft Surface – https://news.microsoft.com/en-gb/2017/07/27/british-companies-risk-creativity-crisis-microsoft-surface-research-reveals/

Este fracasso deve-se ao facto de a criatividade não surgir do nada: é necessário fomentá-la e apoiá-la no contexto de um espaço criativo onde haja outras pessoas também criativas. Esta é a razão pela qual, ao longo da história, vimos exemplos de movimentos criativos excecionais, tais como o Renascimento, onde uns e outros se alimentaram reciprocamente de ideias que os inspiraram e lhes permitiu construir uma extensa cultura criativa.
Pelo contrário, o mundo empresarial atual está demasiado centrado na rentabilidade dos seus investimentos e demasiado nervoso pela imprevisibilidade dos mercados para dar aos seus trabalhadores a liberdade de serem criativos. A criatividade necessita de tempo e de um espaço mental para florescer, algo que não encaixa bem com horários e prazos rígidos. As restrições são o principal inimigo da criatividade e isto porque a criatividade exige estar exposta a ideias que procedem de diferentes sectores e âmbitos da vida. Não se pode recompensar como se recompensariam objetivos laborais mais tradicionais e não se pode isolar numa pessoa: é necessária uma comunidade para que a criatividade verdadeiramente se desenvolva.

 

REORGANIZAR O COMPORTAMENTO NO ESPAÇO DE TRABALHO
Todas estas restrições e barreiras estão instauradas na nossa atual forma de trabalhar e esta é a razão pela qual as organizações têm que reestruturar os seus espaços de trabalho para fomentar os hábitos e comportamentos onde possam fazer florescer a criatividade. A professora de Harvard, Shelley Carson, no seu livro ‘O teu cérebro criativo’, explica que no nosso cérebro existem diferentes padrões de ativação que se associam com modos específicos de pensamento criativo. Movemo-nos entre diferentes padrões absorvendo nova informação, conectando pontos, imaginando novas possibilidades e executando em função de algumas ideias, para logo as criticar e melhorar. As atividades e ferramentas que necessitamos para nos inserirmos adequadamente nestes diferentes modos, variam e, desta maneira, o espaço físico e cultural do local de trabalho influi na hora de facilitar os fluxos e refluxos destes padrões de pensamento.

DESENHAR PARA FOMENTAR A CRIATIVIDADE
Uma maneira de construir uma cultura de criatividade é olhar para o desenho físico do espaço de trabalho e considerar como este pode inspirar melhores comportamentos e estilos de trabalho criativos.

Para o conseguir, na Steelcase identificámos três princípios fundamentais aplicáveis ao desenho de espaços de trabalho:

  • Uma atmosfera agradável e descontraída pode ajudar a reduzir os filtros mentais e as pressões que nos levam a bloquear as nossas ideias. Incorporar no espaço elementos de design e soluções de assentos bem pensadas, que favoreçam as mudanças posturais e a comodidade promovendo a conexão emocional com e entre os trabalhadores.
  • Os espaços também podem alimentar a confiança criativa se proporcionarem as ferramentas e tecnologias adequadas para fomentar tanto a participação equitativa como a privacidade sempre que esta seja necessária. Por exemplo, espaços com superfícies verticais onde se possa escrever nelas, dando visibilidade aos pensamentos e permitindo aos outros criar uma compreensão partilhada, para além de reciprocamente se alimentarem de ideias.
  • Quando se trata de criatividade não existe uma norma universal. Os trabalhadores devem receber apoio através das diferentes etapas do pensamento criativo com um ecossistema de zonas fluído que vai desde a exploração individual à conexão social, à cocriação e à avaliação. Isto dá aos trabalhadores a liberdade de escolher onde e como encontrar a sua faísca criativa.
“Todo o mundo tem o poder de ser criativo, mas as organizações têm que ser valentes para permitir que a criatividade floresça.”

O VALOR DE SER CRIATIVO
Num mundo em que a mudança e a incerteza se converteram na norma geral e em que a tecnologia se está a infiltrar em todos os aspetos do trabalho, os trabalhadores devem poder tirar proveito daquilo que os faz humanos. Todo o mundo tem o poder de ser criativo, mas as organizações têm que ser valentes para permitir que a criatividade floresça. Fazê-lo não só levará a uma maior inovação e crescimento empresarial, como também ajudará a forjar uma mão de obra mais comprometida e satisfeita, preparada e segura face ao futuro.

por Beatriz Arantes, diretora de investigação de WorkSpace Futures EMEA, Steelcase

Beatriz Arantes é investigadora chefe do grupo WorkSpace Futures, EMEA de Steelcase, com sede no Centro de Aprendizagem e Inovação de Munique. Passou os últimos 10 anos a investigar o impacto do trabalho e dos espaços laborais no rendimento e no bem-estar. Com uma vida nómada que a levou a viver em 8 países diferentes, Beatriz Arantes completou o curso de Psicologia na Universidade de Brown, nos Estados Unidos, conta também com um título em Psicologia Clínica e Organizativa pela Universidade Federal de Santa Catarina, no Brasil, e um mestrado em Psicologia Ambiental Aplicada pela Universidade René Descartes de Paris. Conviveu com uma grande variedade de culturas e modos de vida, daí a sua paixão pela compreensão e a melhoria da vida das pessoas.

WorkSpace Futures é um grupo multidisciplinar de investigadores que trabalham no campo da arquitetura, da indústria, do design de interiores e para utilizadores finais, a engenharia, a ergonomia e a economia.

Estes especialistas identificam as tendências emergentes relacionadas com o trabalho, os trabalhadores e os espaços de trabalho.
Desenham protótipos experimentais baseados na investigação aplicada que servem para o desenvolvimento da arquitetura inovadora, tecnologia e mobiliário de escritório para ajudar a que todas as pessoas possam disfrutar de uma experiência melhor nos seus postos de trabalho.

 

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